quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Evolução

Ela chegou alegre e sorridente. Com os cabelos amarrados, todos podiam ver a sua face desnuda. Aquela, encoberta de outrora. Falou com todos e sentou-se com disposição. Desconfiados, olhavam.  Cochichavam. Viravam o olhar em sua direção. Mas ela sorria, escrevia. E se via como uma flor admirada pela multidão.

Medo

Ela anda de cabeça baixa e inconstante. Passa a mão nos cabelos compridos e se esconde incompleta. Todos a veem desconfiados. Cochicham. Viram o olhar em sua direção. Ela não suporta. Chora. Sai correndo e se tranca. Mesmo assim busca forças e se abre. E sem alivio que a sustente, deixa fluir a ternura de uma flor despedaçada pela dor e por um medo até então desconhecido.



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sem

Na viagem a São Paulo, ele carregava além da mala, seu passado sofrido na terra quente do Maranhão. Ouvia falar do frio, da poluição e até da violência. Mas sabia que seu futuro pertencia a si mesmo, porque na sua íris, o destino já era incerto. Era o primeiro e último passo de sua chegada, sem partida de volta. Na nova terra, era um sem terra, sem teto e sem ter para onde ir.

Fechando os olhos para o abuso sexual


“Eu era uma garota feliz, risonha, linda e tudo se transformou a partir da violência que sofri. Eu tinha três anos de idade e lembro que fui estuprada por um homem de mais ou menos 30 anos, amigo do meu pai. Ele me estuprou de verdade. Consumou o ato sexual, e muitos dizem que é impossível ter lembrança dessa idade. Mas lembro muito bem. Lembro de ter sido levada ao médico, de não querer deixar que ele me examinasse, de ter meus órgãos genitais feridos, afinal, eu era uma criança.”
O relato que você acabou de ler é de Ana Carolina, nome fictício de uma jovem que preferiu não se identificar. Além dela, outras milhares de crianças sofrem abuso sexual todos os dias no País. Para se ter uma ideia, somente no ano de 2007 foram contabilizadas mais de sete mil denúncias de abuso sexual. Já no ano de 2009, esse número saltou para quase 10 mil. Apesar do índice alarmante, ainda há muitos casos escondidos na Região Central e, principalmente, no interior do Brasil e que ninguém consegue imaginar.
Ana Carolina, assim como as demais vítimas de violência sexual, prefere optar pelo silêncio. Muitos dos pais decidem-se pelo isolamento. E acreditam que não falar sobre o assunto com a criança vitimada suavizará o sofrimento da família. Foi o que os pais de Ana Carolina fizeram, imaginando que ela não se lembraria de nada quando crescesse. No entanto, o medo foi a presença mais constante na vida da menina que passou a ter uma adolescência conturbada.
Geralmente, a falta de estrutura familiar impede os pais de observarem comportamentos estranhos nos filhos. Em muitos casos, o abusador dorme no quarto ao lado da criança, podendo ser o próprio pai, tio, padrasto, irmão, avô, vizinho ou amigo da família. E o pior é que nem sempre os pais estão atentos a isso. Com Ana Carolina, por exemplo, o segundo estupro ocorreu quando os pais se afastaram. “Meus pais se separaram e passamos por dificuldades financeiras. Foi quando voltei a sofrer outro estupro por uma pessoa que eu conhecia. Mais uma vez o medo, a vergonha, a culpa se apoderaram de mim, e eu não falei para ninguém. Fiquei trancada na minha dor”. Em situações assim, principalmente na sociedade onde vivemos em que o desejo sexual é estimulado em todos os momentos, a atenção e preocupação com as crianças devem ser redobradas, apesar de ser difícil manter os cuidados em uma família desestruturada.
Músicas, novelas, filmes e até desenhos animados estimulam a libido de muitas pessoas predispostas a esse tipo de satisfação errônea com menores, expondo-os a uma prisão perpétua e cruel para as vítimas. Mesmo assim, apesar de todo alerta, muitos pais, principalmente as mães, induzem, talvez de forma inconsciente, as crianças a uma exposição desnecessária do próprio corpo. É aí que entram muitas roupas chamadas infantis, que vestem a criança de uma sensualidade precoce e que retiram delas aquilo que possuem de mais puro: a inocência.
O alerta deve ser de que o abusador sexual não mede esforços para se satisfazer. Ele utiliza o corpo da criança ou adolescente para se saciar sexualmente através do uso ou não da violência física. Com Ana Carolina, por exemplo, aos três anos de idade o ato sexual aconteceu por completo. A penetração que deveria ocorrer em uma mulher adulta fora consumada em uma criança. Mas há ainda quem desnude, toque, acaricie e leve as crianças a assistir ou participar de práticas sexuais de qualquer natureza, sem que os responsáveis sejam sequer punidos.
O pior de tudo é que além de sofrer o abuso, as crianças ainda tenham que conviver com as lembranças, traumas, medos, culpas e complexos de inferioridade, forçando-as a uma ‘marginalização legal’. E além de viverem presas dentro de si, e marcadas física e emocionalmente pelo passado, ainda tenham que conviver com a hipocrisia social de que o mundo, pelo menos para elas um dia vá melhorar.

Infância perdida: o caos das drogas no Brasil


Metrô Santa Cecília, centro de São Paulo. Um rapaz ajoelhado, na saída da estação, implora por dinheiro. A camisa rasgada está completamente molhada. Visivelmente drogado, o menino esfrega no rosto o sangue que escorre do nariz e ensopa roupa e chão. As pessoas passam e o máximo que fazem é balançar a cabeça negativamente. Assim como ele, outras dezenas de garotos e garotas andam pelas ruas do centro da capital paulista confundidos com zumbis. Se esse rapaz for ajudado, pode ser que até os seus 19 anos ele consiga sobreviver, já que o Índice de Homicídios na Adolescência (IHA) estima que até 2012, em torno de 33 mil pessoas entre 12 e 18 anos serão vítimas de assassinatos. Entre as causas está o uso de drogas e tráfico. O IHA ainda estima que 13 jovens morram diariamente no País.
Pelas ruas das cidades, é cada vez maior o número de crianças e adolescentes que têm debaixo de viadutos e marquises o ponto de encontro oficial para utilização de drogas de todo tipo. O crack, a mais cruel delas, consome cerca de 600 mil jovens, e deixa outros 25 mil correndo um sério risco de morte, segundo o Ministério da Saúde.
Motivos para isso não faltam, visto que a maioria dos problemas que envolvem a juventude recai na maior parte das vezes sobre a família. Em muitos casos, a falta de planejamento familiar, a miséria, o abandono e os maus tratos expulsam as crianças do convívio em família para as ruas, onde serão vítimas de outras formas de violência e estarão expostas ao crime e vícios. E como esse ciclo só tende a fechar com a morte, para o Ministérios da Saúde, 50,5% da mortalidade entre adolescentes são conseqüências de agressão e homicídio.
Uma das soluções para a diminuição desse índice alarmante, o exemplo dos pais é muito importante na educação dos filhos. Apesar disso, muitos ainda insistem em levar as crianças para bares, fazendo com que os pequenos tenham a primeira experiência com álcool na presença dos seus responsáveis. É o que diz uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a qual relata que 46% dos adolescentes tiveram o primeiro consumos de álcool ainda em casa. O pior é que muitos pais ignoram o fato de que bebida alcoólica também merece atenção, principalmente porque o álcool também é considerado um tipo de droga, apesar de lícita. Mesmo assim, ela é a mais consumida entre os jovens e a que é usada mais cedo, com média de idade de 12,5 anos.
O uso cada vez mais cedo deste tipo de drogas lícitas ou não pode estar envolvido com o tipo de amizade ou companhia do adolescente, falta de orientação e de estrutura familiar, em que os pais mostram-se longe da realidade dos filhos o que tange aos perigos escondidos por detrás de músicas, artistas, filmes e festas que fazem apologia ao uso de entorpecentes.
Talvez seja pessimista a ideia de que a juventude está se reduzindo, aos poucos, em pó, álcool, comprimidos, tabaco e cachimbo. Mas, se o retrato do futuro for a imagem do rapaz do metrô, será difícil pensar que o futuro do País estará em boas mãos, se os jovens estão se deteriorando cada vez mais cedo. A não ser que a sociedade repense o que de fato é válido como conceito, valor e princípio, para que opiniões proselitistas e dogmáticas não dominem a mente e a inteligência das pessoas, fazendo-as acreditar que Deus está por trás de todas as desgraças e mazelas da humanidade.

Da boneca à vassoura: um retrato dos abusos físicos nas crianças

- Meu Deus, um dia me livra daqui. Por favor, me livra daqui.
- Por que você não enxugou meu banheiro?
- Ah, tia, esqueci.
- Ah, esqueceu? Então, você vai ver o que é bom.
- Não tia, não faz isso não. A senhora não precisa me bater. Me perdoa, tia. Eu já aprendi...
- Amarra ela. Acorrenta. Liga o ferro, deixa bem quente e me dá aqui.
- Não, tia, por favor...
...
- Agora, me traz o alicate. E uma tesoura também.
- Tia, por favor, eu já aprendi...
- Põe a língua pra fora. Põe a língua pra fora, anda!
- Eu já aprendi, tia. Tia, pelo amor de Deus, ti....
...
A menina Lucélia Rodrigues, de 12 anos, ‘reza’ todos os dias para sair do martírio ao qual é submetida diariamente. Sofre torturas pelos meios mais cruéis e inimagináveis por uma empresária de Goiânia, a quem chama de tia, e que a adotara ilegalmente. Mas o sofrimento da criança começou muito antes, quando a mãe biológica, que não tinha condições de criá-la, a entregou aos cuidados da empresária. Com mais cinco crianças em casa, o jeito era se desfazer dos filhos, como forma de minimizar os problemas financeiros.
Muitos fatos como esse ocorrem frequentemente no País, já que cerca de 127 mil denúncias de violência contra menores foram registradas no Disque 100 desde sua criação, em 2003. Por dia, 77 casos são denunciados. Mas há 7 anos, o número não passava de 12, é o que diz a Secretaria Especial de Direitos Humanos.
Como no caso acima, centenas de crianças são adotadas de forma ilegal. Com isso, os novos pais nem sempre cumprem o que prometem para as verdadeiras famílias. Assim, sem o conhecimento da Justiça, muitos se aproveitam da fragilidade infantil e da falta de conhecimento dos genitores para descontar nas crianças suas raivas, estresses, nervosismos e outras emoções. E a violência física, sexual e emocional torna-se mais um membro da família, tão presente na vida das crianças quanto um simples ursinho de pelúcia. Da mesma forma que Lucélia, um milhão de garotos e garotas abaixo dos 14 anos trabalham em vez de estudar, sendo que, no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho, são 215 milhões. Ademais, cerca de 5% das crianças em idade escolar sequer foram matriculadas, e muito menos estudam.
A angústia e orações de Lucélia duram 2 anos. A polícia invade a casa e encontra a menina amarrada, amordaçada e acorrentada em uma escada nos fundos do imóvel. Os policiais choram. Nem mesmo eles, acostumados com toda forma de maldade, aguentam ver a cena aterrorizante. A garota, sem uma parte da língua, e o corpo salpicado de hematomas e queimaduras de ferro de passar, começa a contar tudo o que sofrera. As unhas, roxas, foram pintadas com marteladas nos pés e mãos prensadas na porta. Magrinha, era deixada constantemente sem se alimentar. Sem direito a água ou comida, ingeria forçadamente fezes e urina de cachorro. A delegada do caso, Adriana Accorsi, disse, em entrevista a um programa de tevê, que “a conduta de ter muitos filhos e por não ter condições de criá-los, entregando essas crianças para outras pessoas – como a mãe de Lucélia fez com cinco dos seus seis filhos –, realmente é moralmente duvidosa e reprovável”. E ainda aconselhou: “Nós devemos ter os filhos que nós podemos cuidar e devemos cuidar com carinho e atenção. Se ela não tivesse entregado (a filha), nada disso teria acontecido.”
Apesar deste alerta, é cada vez mais comum mulheres, sem nenhum preparo psicológico, darem à luz meninos e meninas todos os dias. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, o Sistema Único de Saúde (SUS), registrou 444.056 partos envolvendo meninas de 10 a 19 anos. Sem dinheiro para o sustento nem de si mesmas, muitas optam pelo abandono, entregam para adoção legal ou não, ou ficam com os filhos, sem possuir condição mínima para educá-los. Então, sem freio nas mãos, a violência física é a primeira marca que surge no meio atribulado em que a criança vive. Além disso, ainda existe a negligência, a falta de cuidados e de atenção, que agridem o menor tanto quanto os abusos físicos ou sexuais. E os motivos ou (in) justificativas são os mais diversos, e vão desde as práticas e crenças religiosas, meio de disciplina e educação, até a falta de estrutura psicológica para cuidar de um pequeno ser.
Lucélia, após o período de 2 anos de sofrimento, maus tratos e torturas, é liberta. A empresária Silvia Calabresi Lima e a empregada doméstica Vanice Maria Novaes são presas. Hoje, a adolescente de 14 anos voltou a estudar e a ser criança, mesmo marcada no copo e na alma. Quer ser delegada de polícia e “cuidar das crianças do Brasil”. Atitude nobre para quem fora forçada a trocar, por um período, as bonecas por vassouras, rodo, balde e espancamentos. A passos curtos, seu sonho caminha para a realização. Só resta saber se até lá as outras milhares de crianças, que sofrem escondidas pelo País, aguentarão esperar pelo futuro ato heroico da menina.

domingo, 7 de novembro de 2010

Incontida

Ela esperava por ele toda manhã. Há tempos, o bonito moço calmo e atraente não passava mais. À noite, sempre lhe dizia como era boa sua companhia; seu cheiro; as suaves mãos que afagavam seu rosto e acariciavam seus cabelos.

Ela era ingênua, e tão doce quanto fiel. Sempre o aguardava e se machucava com a ausência dele. Seu homem. Sua vida. Sua morte. Mas quando ele surgiu sem esperar, assustou-se com sua aparência vil. Estava tão frio, feio, doente; agressivo. E já não mais reconhecendo-o, chorou. Tanto, que soluçava, gritava. Ele não era o mesmo, e tão logo se imaginou enlouquecida.

Mas agora ela aparece cabisbaixa, comovida, incontida. Os longos cabelos negros cobrem o rosto entristecido por completo. Anda como um zumbi, e ele continua ali, latejando em seus pensamentos. Até que um grito lhe chama, e ela acorda do pesadelo sombrio.  Os loiros cabelos reluzem com a luz do dia e já correm alegres e esperançosos, prontos para mais um afago sonhador.

Forasteiro


Caminhando pelas ruas do centro de São Paulo é fácil imaginar o que se pode encontrar. Mas se um forasteiro de qualquer pequena ou grande cidade se aventurar pelas estreitas ruas da região poderá se sentir, de início, como um verdadeiro estranho.
Tudo porque objetos artesanais, blusas com declarações de amor à cidade, enfeites de material reciclado, guloseimas orientais, água de côco, fantoches imitando personalidades e artistas de rua mostrando seu talento a uma platéia itinerante, são apenas algumas amostras do que essa pessoa poderá encontrar pelas ruas que permeiam o centro de São Paulo.
Se continuar andando, o peregrino, com olhar curioso, poderá ver que lugar de criança não é apenas em casa, mas nas esquinas e bancos de praça, maltrapilhos, sujos e mal encarados. Ou quem sabe em calçadas, sendo despertadas diariamente pelo forte sol do verão paulista ou pelas torrenciais chuvas desta época do ano.
Seus olhos também poderão ver pessoas de todas as classes, dividindo o mesmo espaço e carregando sacolas de compras. Não há como saber quem é rico, pobre, quem exerce altas funções ou é apenas um simples assalariado.
Neste conflito sócio-econômico da capital ele também não terá dificuldade de encontrar gente vasculhando lixo ao lado de luxuosos carros e prédios de alto padrão.   
Este forasteiro poderá se sentir chocado com tanta discrepância em um único lugar: arranha-céus, símbolos do poderio econômico do centro velho paulista versus barracas, camelôs e produtos piratas espalhados pelas ruas, em um crescente comércio informal.
Ele andará lado a lado com meninas trocando carícias, rapazes marcando encontro com seus namorados, mulheres com suas esposas e filhos à volta, e travestis fitando sem cerimônia homens acompanhados.
E na contramão dos carros e entra e sai dos metrôs, certamente vai se deparar com emos, hippies, roqueiros, punks, góticos e até gente “simples” caminhando, comprando ou apenas passeando, quando simplicidade por aqui já é algo quase em desuso.
Talvez este “estrangeiro” se impressione; quem sabe se sinta surpreso, mas pode sentir-se também como fazendo parte de um grande acampamento, onde todas as tribos se combinam e onde tudo é possível de ser encontrado.
Para um forasteiro perdido, o centro de São Paulo é assim: a cada minuto pode se descobrir uma novidade, mesmo que o novo para ele já esteja ultrapassado para muitos.